Se ler Dworkin é escalar a mais alta montanha dos conceitos, ver Matheus no palco é deslizar por uma ladeira suave ao som de uma bela canção. E é no compasso de um bom argumento que se percebe a cadência da cultura, o ritmo da história que pulsa viva em cada canto de chão. Talvez por isso, não seja surpresa que Matheus Pimentel Nunes, acadêmico do segundo semestre do Curso de Direito da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) Câmpus de Santiago, encontre na música nativista não um refúgio, mas um complemento.
Na 23ª Casilha da Canção Farrapa realizada em Itaqui, de 28 a 30 de agosto Matheus foi o grande nome do festival. Com a canção “No Verde Mar das Coxilhas”, de Paulo César Limas (letra) e Felipe Goulart (melodia), levou para casa a Casilha Dourada, principal premiação do evento e também venceu na Linha Nativista Campeira, com “Casilheiro”, e conquistou o carinho do público como música mais popular do festival.
Talento? Sim. Mas também coerência. A mesma sensibilidade que escolheu o Direito como caminho de vida é a que se expressa com naturalidade nos palcos. Em ambos os espaços, Matheus atua como quem respeita o tempo, a escuta e a linguagem. Ele sabe que a cultura e a justiça caminham de mãos dadas mesmo que muitos ainda não tenham percebido.
- Eu, desde criança, sempre gostei de música -, relembra Matheus.
Aos oito anos, pediu à mãe para fazer aula de violão. Logo veio o canto, os primeiros festivais, e o incentivo do pai que também é compositor e quem lhe apresentou esse universo onde o talento não é um dom isolado, mas um elo entre gerações.
Não é raro ouvir que arte e Direito são dois mundos distintos. Matheus mostra o contrário:
- Cada festival é uma experiência nova. São novas pessoas, novos palcos, novas histórias -, afirma o acadêmico e músico.
O que Matheus fala também poderia ser dito sobre cada processo, cada caso, cada aula. Em ambos os caminhos, o que move é o contato humano, o respeito à escuta e à narrativa do outro.
Com o grupo Flor e Truco, formado com amigos de São Borja, Matheus começa a explorar o lado da composição musical.
- Ainda estou amadurecendo como compositor, mas esse grupo é onde tenho mostrado o meu trabalho mais autoral -, explica o acadêmico.
Mas, por que isso importa? Porque a cultura também é um instrumento de leitura do mundo. E quem compreende as sutilezas de uma canção certamente lê com mais profundidade as entrelinhas da vida e das leis.
O Direito não precisa se opor à arte. Nem a arte se distanciar do Direito. Ambos partem do mesmo lugar que é o desejo de entender o que é justo, belo e verdadeiro. Onde um busca resolver conflitos, o outro os traduz. Onde um impõe limites, o outro os transcende. Mas no meio disso tudo, existe o ponto de convergência que é o ser humano, as particularidades de cada um.
Matheus é jovem, mas tem consciência de que está construindo algo maior do que prêmios e medalhas. Está pavimentando um caminho onde o profissional do Direito também pode ser artista, onde a cultura nativista não é só memória, mas presença. Onde cantar sobre o campo não é fugir do mundo é enfrentá-lo com doçura e coragem.
- Sair campeão desse festival foi maravilhoso, uma sensação de dever cumprido -, diz Matheus.
É possível perceber, no seu tom de voz, que o maior prêmio não está no troféu e sim na conexão com o público, no olhar compartilhado com outros músicos, na certeza de que a arte transforma assim como o Direito pode transformar.
Em tempos em que se pede por um mundo mais empático, Matheus nos oferece uma lição sem levantar bandeira, pois ser artista não atrapalha os estudos, assim como ser estudante de Direito não limita a alma. Pelo contrário: amplia. Aprofunda. Humaniza.
A URI Santiago parabeniza o acadêmico pela conquista e se coloca como suporte e ponte para muitas que virão, nos palcos e na instituição.