Um espaço onde são construídos vínculos com pessoas e onde todas têm voz e vez. Não existem profissões, títulos. “Eu sou alguém que está expondo sua humanidade e ouvindo a humanidade dos outros”, relata Michele Noal Beltrão, pesquisadora e docente na área da Justiça Restaurativa e coordenadora do Círculo de Construção de Paz Escolar.
Para a implementação do projeto-piloto, que ocorreu junto a cerca de 150 alunos dos terceiros anos do Ensino Médio da Escola Estadual Thomás Fortes, em Santiago, no segundo semestre de 2021, primeiramente, ocorreu um encontro com a orientação, coordenação pedagógica e vice-direção do educandário. Depois, foi a vez de uma atividade com todos os docentes das turmas de terceiros anos.
Círculos fazem parte das chamadas práticas restaurativas, as quais contribuem, por exemplo, com a conscientização de fatores motivadores de conflitos e violência. O círculo é uma das formas, as práticas também podem ocorrer por mediação e conferências, por exemplo. Independente da maneira escolhida para restauração de vínculos nos mais diversos espaços humanos, a Comunicação Não-Violenta mostra-se como uma forma de falar e de ouvir.
Em um período com bombardeios de informações e de uso intenso de tecnologias digitais, a pedagoga Flávia Bonoto da Silva, acredita que a escola não pode deixar esvair os espaços de escuta e acolhimento. Ela vê nos seus alunos a necessidade de serem ouvidos. “De falar, de transbordar, de conseguir verbalizar o que eles não estão dando conta”. A educadora não julga ambiente, nem estrutura familiar, mas sim a sociedade como se apresenta hoje, de rotinas aceleradas, em que não se dá conta sobre a preservação de espaços de escuta.
Flávia, que é vice-diretora geral e coordenadora pedagógica da escola, afirma que além do conteúdo programático, existem formações que devem ocorrer em paralelo, tanto que na instituição já se trabalha a aprendizagem de forma que ela tenha significado para a vida. “Esses projetos que enaltecem isso, são muito bem-vindos em nossa escola”. A pedagoga conta que os círculos oportunizaram espaço de escuta e de perceber e enxergar o nosso mundo, além de trazer situações específicas do grupo. Ele gerou encaminhamentos de alunos para atendimentos dentro da própria escola ou para órgãos externos, inclusive na Clínica-Escola de Psicologia da universidade. Foram situações que surgiram junto à professora Michele, à bolsista, ao professor da turma ou o próprio aluno levava até a gestão da escola alguma demanda. A pedagoga explica que situações familiares sempre são as mais comuns, neste caso, na maioria das vezes, os pais são chamados. “Para conversar um pouco sobre e se darem conta juntos, que faltou daqui, faltou dali, que precisava só ser visto para ser trabalhado, porque aquilo que não é falado, aquilo que não é entendido, não é trabalhado”.
Como acontece um círculo
O círculo tem regras. Para começar, tem o check-in. Na hora do encerramento, o check-out. No primeiro, os participantes relatam como estão chegando. Há também o momento de abertura do círculo. O próximo passo são perguntas para que se verifiquem quais são os valores quando se está em um relacionamento com outras pessoas. O círculo também escolhe regras e princípios, como não julgar e falar em primeira pessoa. “Eu não falo dos outros, falo de mim, para que os outros possam empaticamente se reconhecer em mim ou não se reconhecerem, e está tudo bem”, reflete Beltrão. Outro principio é o segredo: tudo que se passa no círculo, fica no círculo. “Se eu vejo que meu colega, meu amigo ou aquela pessoa que estou conhecendo naquele momento mais profundamente está precisando de algo, eu não devo fazer fofoca e contar aos outros, se eu tiver que agir, é tentando ajudá-la fora do círculo”. Na medida em que a conexão vai acontecendo, já surge um próximo passo, que é a contação de histórias. No check-out, os participantes comentam o que levam do círculo para a vida.
No Thomás Fortes, foram 22 encontros de agosto a novembro, realizados com os sete terceiros anos do Ensino Médio e professores. O primeiro círculo tratou sobre o que ocorreu de benéfico e não muito positivo na pandemia. A estudante Érika Bittencourt (foto), 18 anos, lembra desse dia. Recorda que, ao voltar para a presencialidade, a turma encontrava-se mais retraída depois de tanto tempo em distanciamento social. Para ela foi bom conversar, estender a mão. “A gente nem sabia o que estava ocorrendo com outras pessoas”, confessa.
“Todo mundo quer conversar”, diz o professor de Educação Física Irineu Cassol, vice-diretor do turno da noite. Acredita que a atividade foi fundamental para os alunos quanto à interação no retorno das aulas presenciais, além de possibilitar “olhar um pouco para dentro”.
O segundo círculo, a roda da medicina, separou os quatro quadrantes da vida: mental, emocional, psicológico e físico. Beltrão acredita que foi como um gatilho para melhorias na qualidade de vida. “Uma delas me mandou uma mensagem: profe, comecei a pedalar de manhã”. Outros reconheceram que tinham que estudar para o Exame Nacional do Ensino Médio, mas procrastinavam. “Então é a possibilidade da gente se enxergar, ver o que está em desequilíbrio, pra tentar harmonizar”. Encantada, Michele diz que são coisas simples, sem complexidade.
O terceiro círculo foi sobre motivação. Nada mal para alunos que estavam prestes a realizar o vestibular. “Trabalhamos a partir de perguntas bem importantes: o que atrapalhava a motivação e o que favorecia a motivação”.
O círculo tem uma peça de centro, onde são colocados objetos para as pessoas conectarem-se e para ter para onde olhar em momentos de falas difíceis. “Tudo que é forte na natureza é circular”. Michele Beltrão e a bolsista, a estudante de Direito, Ana Laura Peralta Cardoso, foram as facilitadoras dos círculos. Facilitadores têm o papel de manter a ordem e de que todos sejam respeitados no momento da fala, já que todos têm direito a ela, mas não dever. Existe um objeto da palavra ou bastão da fala e, no projeto, foi adotada a girafa, o símbolo da Comunicação Não-Violenta. Mamífero que possui o maior coração da floresta, ela representa a autenticidade e a escuta ativa e empática, colocando-se no lugar do outro, sem julgamento. “Pelo pescoço dela, ela tem condições, não de se sobrepor, mas de enxergar longe”.
Após a realização dos círculos, os alunos responderam a uma pesquisa. “A capacidade de ouvir mais” esteve em muitas respostas. “Tem um provérbio africano que eu gosto muito que diz o seguinte: as pegadas das pessoas que andaram juntas nunca se apagam”, emociona-se Michele, que atualmente também ocupa o cargo de Diretora Geral da universidade.
O projeto ocorre via Grupo de Estudos da Infância e Adolescência (GEIA), do Aprendizado Jurídico do curso de Direito (PAJ) da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões- URI Santiago. Sobre o tema, Michele já participou de cursos da Promotoria Regional de Educação de Santa Maria (PREDUC) e da Escola Superior da Magistratura (AJURIS).
*Matéria escrita em março/2022- Especial 30 anos
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