Há cenas que ultrapassam o momento em que acontecem e permanecem na memória. No tradicional Desfile Farroupilha de Santiago, realizado no domingo, 20 de setembro, uma delas foi protagonizada por um menino de apenas 8 anos, uma tropilha de cavalos colorados e uma tradição que atravessa gerações.
Representando o Piquete Campo a Fora, Inácio Antocheviez Stacowski, aluno do 3º Ano A da Escola da URI, cruzou a avenida conduzindo a égua madrinha de “acabresto”, enquanto, atrás dela, seguia uma tropilha de cavalos colorados, entablados. Atrás, acompanhavam a cavalo os pais, Lúcio Rigon Stacowski e Renata Franco Antocheviez Stacowski.
A cena chamou a atenção de quem acompanhava o desfile e traduziu, em poucos minutos, uma história muito maior: a relação de Inácio com o campo, com os cavalos e com a cultura gaúcha, construída desde antes mesmo de seu nascimento.
Filho do produtor rural Lúcio Rigon Stacowski e da médica veterinária e advogada Renata Franco Antocheviez Stacowski, ex-aluna da Escola da URI e bacharel em Direito pela URI Câmpus Santiago, Inácio cresceu tendo o campo como parte de sua rotina e de sua formação.
- Para o nosso filho Inácio, a cultura gaúcha faz parte de sua história desde a gestação, quando toda a sua espera já foi intimamente ligada ao campo -, conta Renata.
No cotidiano da família, a tradição aparece em gestos simples: no mate compartilhado, nas peças do vestuário tradicional e, especialmente, na convivência com a vida rural. Aos finais de semana, Inácio acompanha os pais nas lides campeiras e convive com os colaboradores da propriedade, participando dos cuidados e do manejo dos animais.
Mais do que observar, ele participa.
Para os pais, proporcionar essas vivências também é uma forma de preservar conhecimentos que passam de geração em geração.
- Procuramos proporcionar ao Inácio vivências práticas, permitindo que participe das atividades, conheça os costumes e compreenda a importância do trabalho rural -, explica Renata.
A família também compartilha essas vivências com amigos e colegas de Inácio, aproximando as crianças do campo, dos animais e do plantio de árvores. Para eles, preservar a natureza e as tradições também faz parte dessa formação.
Da propriedade para a avenida
A participação de Inácio no desfile deste ano, representando o Piquete Campo a Fora, nasceu naturalmente dessa vivência.
A família mantém, há anos, a tradição de trabalhar com tropilhas entabladas e já havia participado de outro desfile com uma tropilha de cavalos gateados. Neste ano, a novidade foi a estreia de uma tropilha formada exclusivamente por cavalos de pelagem colorada, conduzida por Inácio.
A escolha não foi apenas estética. A égua madrinha, com seu cincerro, exerce uma função importante: ajuda a manter a tropilha reunida e facilita sua localização. Para que os animais permaneçam agrupados mesmo soltos, existe um trabalho cotidiano de treinamento, condicionamento e construção de confiança.
Foi nesse contexto que Inácio assumiu a condução da tropilha.
- Embora sua idade, por toda a sua vivência, tínhamos segurança na sua condução da tropilha -, relata a mãe.
Na avenida, o resultado foi uma das cenas que mais despertaram olhares e emoção durante o desfile. A tranquilidade dos animais, reunidos atrás da égua madrinha, contrastava com a grandiosidade do momento e revelava, para quem observava, o resultado de uma relação construída diariamente.
Para Inácio, estar ali representando o Piquete Campo a Fora foi motivo de orgulho e alegria. Para a família, significou mais: a continuidade de valores e costumes recebidos das gerações anteriores e que agora começam a ser transmitidos a uma nova geração.
Uma fotografia que conta uma história
Depois do desfile, a família escolheu um lugar especial para registrar aquele momento: a frente da Escola da URI, onde Inácio estuda.
A fotografia da tropilha reunida diante da escola não aconteceu por acaso. Para os pais, a imagem carrega um significado que vai além do registro de uma participação no desfile.
- Guardadas as proporções, assim como a égua madrinha orienta e conduz sua tropilha, acreditamos que a URI também exerce um papel fundamental na formação do Inácio, ajudando a moldar seu caráter, seus valores e seu caminho para o bem -, destacam.
A fotografia passou, assim, a representar a união de duas bases importantes na trajetória do menino: de um lado, a família, o campo e as tradições gaúchas; de outro, a escola e a educação.
Quando o campo também entra na sala de aula
Essa parceria também se revela no cotidiano escolar.
No dia 23 de setembro, apenas três dias depois do desfile, Lúcio e Renata estiveram novamente na Escola da URI, desta vez para compartilhar com a turma do 3º Ano um pouco das experiências vividas no campo.
Em uma atividade sobre cidade e campo, os pais de Inácio conversaram com os estudantes sobre a rotina rural, os cuidados e o trabalho com o gado, cavalos, ovelhas e outros animais.
Foi mais um momento em que a vivência familiar encontrou o espaço de aprendizagem, aproximando os conteúdos estudados da realidade e permitindo que outras crianças conhecessem, por meio de quem vive essa experiência, diferentes modos de vida.
A presença da família nos processos educativos do filho tem sido constante. E, ao levar para dentro da escola conhecimentos, experiências e valores construídos no campo, Lúcio e Renata também contribuem para a formação dos colegas de Inácio.
Entre a avenida e a sala de aula, entre o campo e a escola, a trajetória de Inácio revela que tradição também é aprendizado. É memória, convivência, responsabilidade e pertencimento. E que, quando família e escola caminham juntas, cada experiência vivida pode se transformar em parte da formação de uma nova geração.
No passo tranquilo da égua madrinha e na tropilha que a seguia, Santiago viu, no último 20 de setembro, mais do que uma bela cena de desfile. Viu uma tradição sendo vivida, aprendida e, sobretudo, continuada.